
Aula 4 · Métodos Filogenéticos Comparativos · PPGBA/UFMS

Como evolui?
Sob BM, os valores das pontas seguem uma normal multivariada com média na raiz e covariância σ²C (Aula 2):
\[\mathbf{X} \sim N\big(z_0 \mathbf{1},\ \sigma^2 \mathbf{C}\big)\]
\[\log L(z_0, \sigma^2) = -\tfrac{1}{2}\Big[n \log(2\pi) + n \log \sigma^2 + \log|\mathbf{C}| + \tfrac{(\mathbf{X} - z_0\mathbf{1})' \mathbf{C}^{-1} (\mathbf{X} - z_0\mathbf{1})}{\sigma^2}\Big]\]
Os valores de \(z_0\) e \(\sigma^2\) que maximizam log L são as estimativas de máxima verossimilhança.

\(\hat\sigma^2 = 0{,}356\) e \(\hat z_0 = 1{,}83\): a raiz estimada é a mesma dos contrastes (Aula 2) e é o primeiro “estado ancestral” (Aula 7).
Como evolui?
Vantagens: tratável matematicamente; parâmetros com interpretação biológica; α limita o BM; θ pode representar regimes, ótimos ou zonas adaptativas.
Uhlenbeck & Ornstein (1930), Phys. Rev. 36: 823–841.
\[\Large dX = \color{#527238}{\alpha}\,\big[\color{#a15e3f}{\theta} - X\big]\,dt + \color{#1c6e8c}{\sigma\, dB}\]
\(\sigma\,dB\): o movimento browniano (Aula 2)
\(\alpha[\theta - X]\,dt\): a mudança em direção ao ótimo \(\theta\)
\[dX = \color{#527238}{0}\cdot[\theta - X]\,dt + \sigma\,dB = \sigma\,dB\]
Com \(\alpha = 0\), o OU vira um BM.


α maior: o ótimo é alcançado mais rápido, e a variância é menor.

σ² maior: mais variância em torno do ótimo.
Simulações inspiradas em Butler & King (2004) e em Harmon (2019).

Sob BM, a variância cresce como \(\sigma^2 t\); sob OU, estabiliza em \(\sigma^2/2\alpha\). Tempo para percorrer metade do caminho até o ótimo: a meia-vida filogenética, \(\ln 2/\alpha\).
| Ano | Trabalho | Contribuição |
|---|---|---|
| 1976 | Lande | seleção natural e deriva na evolução fenotípica |
| 1979 | Lande | genética quantitativa da evolução multivariada (alometria cérebro–corpo) |
| 1988 | Felsenstein | o OU como “elástico” que puxa a população para o pico seletivo |
| 1997 | Hansen | seleção estabilizadora e análise comparativa da adaptação |
| 2004 | Butler & King | OU com vários regimes (ouch) |
Como evolui?
\[V(t) = \sigma_0^2\, \frac{e^{rt} - 1}{r}\]
O EB vem do modelo ACDC (accelerating–decelerating) de Blomberg, Garland & Ives (2003), Evolution 57: 717–745: é o caso em que a taxa desacelera. Nome early burst: Harmon et al. (2010). Zonas adaptativas: Simpson (1944), Tempo and mode in evolution.

Com \(r < 0\), desacelera (EB); com \(r > 0\), acelera.
O modelo ACDC de Blomberg, Garland & Ives (2003): desacelerado (DC) = EB; acelerado (AC) = late burst.

Sob EB, a variação se concentra entre os clados antigos; sob OU forte, dentro deles.
Ideia da figura de Harmon et al. (2010).
\[dX = \mu\, dt + \sigma\, dB\]
Bokma, Godinot, Maridet et al. (2016), Syst. Biol. 65: 98–108; Lamsdell & Braddy (2010), Biol. Lett. 6: 265–269.

O mesmo σ² nos dois grupos; muda só o sinal de μ.
\[\Large dX = \color{#a15e3f}{\mu\, dt} + \color{#1c6e8c}{\sigma\, dB}\]
Somando os passos de 0 a t:
\[E[X(t)] = z_0 + \mu t \qquad \text{Var}[X(t)] = \sigma^2 t\]
A tendência desloca a média; a variância cresce como no BM.
Com μ = 0, volta o BM: \(dX = \sigma\, dB\).
Numa árvore ultramétrica, todas as pontas estão à mesma distância T da raiz:
\[E[X_i] = z_0 + \mu T \quad \text{para toda espécie } i\]
Os dados só informam a soma \(z_0 + \mu T\): um ancestral pequeno com tendência positiva e um grande sem tendência preveem as mesmas pontas. μ e z0 não são identificáveis.
Com fósseis, as pontas ficam a distâncias \(t_i\) diferentes da raiz e \(E[X_i] = z_0 + \mu t_i\) muda de uma ponta para outra: μ passa a ser estimável.
Nos Caniformia, incluir os fósseis muda as estimativas do tamanho ancestral: Finarelli & Flynn (2006), Syst. Biol. 55: 301–313.
Como evolui?
“All models are wrong, but some are useful” (George E. P. Box)
Burnham & Anderson, Model selection and multimodel inference, Springer.
| Modelo | k | log L | AICc | ΔAICc | wi |
|---|---|---|---|---|---|
| BM | 2 | 5,26 | -6,36 | 0,57 | 0,37 |
| OU | 3 | 5,26 | -4,20 | 2,72 | 0,13 |
| EB | 3 | 6,62 | -6,93 | 0,00 | 0,50 |
Nenhum modelo se destaca: o EB tem o maior peso, mas o BM fica perto.
O EB é raro: pouco suporte para o EB no tamanho e na forma do corpo, mesmo em exemplos clássicos de radiação adaptativa; e o BM às vezes ajusta mal.
Harmon, Losos, Davies et al. (2010), Evolution.
O erro de medida (e a variação intraespecífica) deve entrar sempre no modelo: ignorá-lo favorece modelos mais complexos, como o OU.
Silvestro et al. (2015), Methods Ecol. Evol. 6: 340–346. Em fitContinuous: argumento SE.
Como evolui?
Arbutus: Pennell, FitzJohn, Cornwell & Harmon (2015), Am. Nat. 186: E33–E50. Monte Carlo filogenético: Boettiger, Coop & Ralph (2012), Evolution 66: 2240–2251.

A ideia: modificar a árvore para descrever a história do atributo; quanto mais os dados observados se parecem com os simulados, melhor o modelo. Também serve para o PGLS.
Como evolui?

O atributo evolui como BM, mas entre limites (fisiológicos, por exemplo). Ajuda a separar um OU de um BM limitado.
Boucher & Démery (2016), Syst. Biol. 65: 651–661.

O atributo “desce” para os vales do potencial. BM, OU e BBM são casos particulares; o FPK estima a forma da paisagem a partir dos dados.
Boucher, Démery, Conti, Harmon & Uyeda (2018), Syst. Biol. 67: 304–319.

Saltos raros e grandes sobre um BM (processos de Lévy): a evolução pulsada explica melhor o tamanho do corpo dos vertebrados do que mudanças graduais.
Landis & Schraiber (2017), PNAS 114: 13224–13229.
Como evolui?
Critérios de Simpson (a “paisagem de Simpson”) para detectar radiações:
Se os atributos evoluem com taxas diferentes em linhagens diferentes, comparamos modelos com \(\sigma^2\) e \(\theta\) diferentes.
Simpson (1944), Tempo and mode in evolution.

Picos de aptidão (Wright 1932) e zonas adaptativas (Simpson 1944); as paisagens também mudam no tempo. Em Cyprinodon das Bahamas, a paisagem medida no campo tem vários picos, que ajudam a explicar a radiação.
Martin & Wainwright (2013), Science 339: 208–211. Figura: C. O. Wilke, domínio público, via Wikimedia Commons.

O ótimo se desloca, e a população o acompanha: a ideia por trás de θ que muda entre regimes ao longo da árvore.
Randy Olson & Bjørn Østman (2014), CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons (quadros alternados, 520 px).
Como evolui?
Sem definir os clados: uma abordagem bayesiana (rjMCMC) procura onde a taxa muda (geiger::rjmcmc.bm; Eastman et al. 2011).
OU com vários regimes (θ, σ² e α por regime): ouch (Butler & King 2004), OUwie (Beaulieu et al. 2012). Aqui, o SVL com os ecomorfos mapeados (árvore com altura 1), no mvMORPH:
| Modelo | O que muda entre ecomorfos | log L | AICc | ΔAICc | wi |
|---|---|---|---|---|---|
| BM1 | nada | 5,3 | -6,4 | 57,5 | 0,000 |
| BMM | a taxa σ² | 26,2 | -37,0 | 26,8 | 0,000 |
| OU1 | nada (um ótimo) | 2,9 | 0,6 | 64,4 | 0,000 |
| OUM | o ótimo θ | 40,9 | -63,8 | 0,0 | 1,000 |

Losangos: os ótimos θ do OUM. Espécies de ilhas diferentes convergem para o mesmo ótimo do seu ecomorfo.
Convergência nos Anolis: Mahler, Ingram, Revell & Losos (2013), Science 341: 292–295.
Mahler, Ingram, Revell & Losos (2013), Science 341: 292–295.
Sem atribuir os regimes a priori:
bayou: bayesiano (MCMC), com prior para o número de mudanças; detecta convergência; um atributo por vezl1ou: rápido, por verossimilhança penalizada (LASSO)Como evolui?
Ho & Ané (2014), Methods Ecol. Evol. 5: 1133–1146.
No OUM dos Anolis, a meia-vida é 0,07 da altura da árvore: o puxão é forte, e α deve ser lido com cuidado.
Cooper, Thomas, Venditti, Meade & Freckleton (2016), Biol. J. Linn. Soc. 118: 64–77. Desempenho depende da discriminabilidade, da razão sinal/ruído e do número de espécies: Cressler, Butler & King (2015).
Três contra-argumentos a Cooper et al. (2016):
Conclusão dos autores: não há problema estatístico específico do OU.
Grabowski, Pienaar, Voje et al. (2023), Syst. Biol. 72: 955–963.
Cooper, Thomas & FitzJohn (2016), Methods Ecol. Evol. 7: 693–699.

Antes de usar qualquer método, leia o artigo que o propôs. Não fazer isso pode causar a rejeição do seu manuscrito.

O AIC escolheu o OU E o α? Difícil de estimar
Belmiro de Almeida, Efeitos do sol (1892), domínio público, via Wikimedia Commons. Prática: o walkthrough da Aula 4 e o desafio.
Métodos Filogenéticos Comparativos · PPGBA/UFMS