
Aula 3 · Métodos Filogenéticos Comparativos · PPGBA/UFMS

Há sinal?
A tendência de espécies aparentadas serem mais parecidas entre si do que com espécies tomadas ao acaso na filogenia.

Mesmos valores, mesma árvore: o sinal está na associação entre os valores e o parentesco.
Blomberg & Garland (2002), J. Evol. Biol. 15: 899–910.

Nesta disciplina, o segundo sentido.

100 simulações por modelo na árvore dos Anolis (altura 1). Inspirado em Revell, Harmon & Collar (2008).
O mesmo valor de K ou de λ pode vir de processos diferentes, e processos diferentes podem dar o mesmo valor.
É o mesmo raciocínio do BM como modelo nulo, na Aula 2. E é por isso que “sinal” vai entre aspas: é um padrão estatístico dos dados numa árvore, não uma propriedade do atributo.

Um modelo sem restrição (BM) gera sinal alto (K mediano 0,98); um com restrição forte (OU, α = 10) gera sinal baixo (K mediano 0,33).
Há sinal?
| Medida | Atributo | O que mede | Em R |
|---|---|---|---|
| K de Blomberg | contínuo | variância observada / esperada sob BM | phylosig (phytools) |
| λ de Pagel | contínuo | transformação da árvore | phylosig (phytools) |
| I de Moran, C de Abouheif | contínuo | autocorrelação | Moran.I (ape) |
| Mantel, distograma | contínuo(s) | correlação entre distâncias | mantel (vegan) |
| R² do PVR | contínuo | regressão nos autovetores | lm |
| D de Fritz & Purvis | binário | agrupamento na árvore | phylo.d (caper) |
| Decomposição de Rao | categórico | onde está a diversidade | pacote adiv |

As medidas são correlacionadas sob BM, mas não são intercambiáveis.
Fig. 2 de Diniz-Filho, Santos, Rangel & Bini (2012), Genet. Mol. Biol. 35: 673–679, CC BY-NC 4.0. Comparação mais ampla: Münkemüller et al. (2012).
Há sinal?
Blomberg, Garland & Ives (2003), Evolution 57: 717–745.
\[\Large K = \frac{\color{#1c6e8c}{\left(\dfrac{\mathrm{MSE}_0}{\mathrm{MSE}}\right)_{\text{observado}}}}{\color{#a15e3f}{\dfrac{1}{n-1}\left(\mathrm{tr}\,\mathbf{C} - \dfrac{n}{\sum\sum \mathbf{C}^{-1}}\right)}}\]
Numerador: quanto a filogenia explica dos dados. Denominador: quanto ela explicaria se o atributo evoluísse por BM nesta árvore.
Atributo A das 7 espécies (Aula 2):
| Passo | Valor |
|---|---|
| Média filogenética, \(\hat a\) | 1,829 |
| MSE₀ (em torno de \(\hat a\), sem a árvore) | 0,638 |
| MSE (com C) | 0,415 |
| Razão observada, MSE₀/MSE | 1,535 |
| Razão esperada sob BM | 1,238 |
| K | 1,240 |
Conferido com phytools::phylosig(arvore, A, method = "K").

Paráfrase de Blomberg et al. (2003).

SVL de 82 espécies: K = 1,70, maior que todos os 999 valores com as pontas embaralhadas.

Com 10 espécies, o teste do K detecta o sinal de um BM verdadeiro em 65 % das vezes; o do λ, em 57 %.
Há sinal?

Pagel (1999), Nature 401: 877–884.

A diagonal não muda; o que muda é quanto as espécies compartilham.

\(0{,}5 \times 8 = 4\); \(\;0{,}5 \times 3 = 1{,}5\); \(\;0{,}5 \times 9 = 4{,}5\)

λ = 1: a árvore como ela é (BM). λ = 0: uma estrela (espécies independentes).

O λ escala os elementos fora da diagonal de C. Pode passar de 1, mas só até a covariância igualar a variância (aqui, λ = 2): além disso, C deixa de ser uma matriz de covariância válida. É por isso que o λ de 1,013 da Aula 5 é possível.
Fig. 1 de Pearse, Davies & Wolkovich (2025), Glob. Ecol. Biogeogr. 34: e70012, CC BY 4.0.

SVL dos Anolis: λ = 1,00; o teste da razão de verossimilhança contra λ = 0 dá p = 4,4e-23. Relate o intervalo, não só a estimativa: o perfil quase sempre é largo.
O intervalo de confiança pelo perfil segue a recomendação de Pearse et al. (2025).

Quando as espécies amostradas dependem do próprio atributo (um filtro ambiental, por exemplo), o λ sai enviesado: não compare λ entre assembleias diferentes.
Fig. 3 de Pearse et al. (2025), CC BY 4.0.
Paráfrase de Pearse, Davies & Wolkovich (2025), Glob. Ecol. Biogeogr. 34: e70012.
Simulações sob OU com força de restrição crescente (α), 200 réplicas:
| α do OU | 0 | 2 | 4 | 6 | 8 | 10 |
|---|---|---|---|---|---|---|
| K médio | 0,994 | 0,571 | 0,392 | 0,301 | 0,245 | 0,212 |
| λ médio | 1,000 | 0,999 | 0,999 | 0,994 | 0,976 | 0,941 |
O K cai à medida que o OU apaga a estrutura da árvore; o λ, que é um parâmetro de transformação da árvore, continua perto de 1 nessas simulações.
Adaptado da Tabela 2 de Diniz-Filho et al. (2012), Genet. Mol. Biol. Nas simulações desta aula (bloco 1), com outra árvore, o λ caiu mais: o resultado depende da árvore.
Há sinal?
\[\Large I = \frac{\color{#1c6e8c}{n}}{\color{#96661f}{W}} \cdot \frac{\sum_i \sum_j \color{#527238}{w_{ij}}\, \color{#a15e3f}{z_i z_j}}{\sum_i z_i^2}\]
\(n\): número de espécies · \(w_{ij}\): peso entre \(i\) e \(j\) (o inverso da distância filogenética) · \(W\): soma dos pesos · \(z_i z_j\): o atributo nas duas espécies, centrado na média
Ideia de um slide de J. A. F. Diniz-Filho. Em dados comparativos: Gittleman & Kot (1990).

I de Moran do atributo A: 0,304 com a fórmula acima; 0,380 com ape::Moran.I, que padroniza as linhas de W.

Inspirado em Diniz-Filho (2001), Evolution 55: 1104–1109.

A maioria dos pares só se encontra na raiz (distância perto de 2). As classes de distância permitem avaliar estruturas mais complexas na matriz W do que um único I global.

Com poucos pares na classe, o I pode passar de 1.

Percorra as pontas na ordem da árvore e some os quadrados das diferenças entre vizinhas (Σd²). Se espécies próximas são parecidas, Σd² é pequeno diante da variação total, e o C é alto.
Exemplo de Abouheif (1999), Evol. Ecol. Res. 1: 895–909, recalculado. O C usa só a topologia (a ordem das pontas), não os comprimentos de ramo.
\[\eta = \frac{\sum d^2}{\sum (y - \bar y)^2} = \frac{1409{,}52}{3006{,}30} = 0{,}469\]
\[C = 1 - \frac{\eta}{2} = 0{,}766\]
No artigo, o C crítico era 0,587 e p < 0,01: vizinhas na árvore têm massas parecidas.
O C de Abouheif é um I de Moran com uma matriz de proximidade filogenética particular (Pavoine et al. 2008).
Há sinal?

Nathan Mantel (1919–2002), domínio público, via Wikipedia.
Mantel (1967), Cancer Res. 27. Cautela: Harmon & Glor (2010), Evolution.

r = 0,53; p = 0,013 (999 permutações).
Ideia de um slide de J. A. F. Diniz-Filho.

Com erro de medida (variação intraespecífica), o Mantel tem mais poder que o K, e o distograma mostra desvios do BM.
Hardy & Pavoine (2012), Evolution 66: 2614–2621.
Há sinal?

Ideia de um slide de J. A. F. Diniz-Filho. PVR: Diniz-Filho, de Sant’Ana & Bini (1998), Evolution 52: 1247–1262.


\(\mathbf{G} = -\tfrac{1}{2}\,\mathbf{J}\,\mathbf{D}^{2}\,\mathbf{J}\), com \(\mathbf{J} = \mathbf{I} - \tfrac{1}{n}\mathbf{1}\mathbf{1}'\) (como numa PCoA).

Cada autovetor é um “corte” linearmente independente da filogenia: permite avaliar o efeito da filogenia em escalas diferentes, e o autovalor diz quanto da estrutura da árvore cada corte representa.
Ideia de um slide de J. A. F. Diniz-Filho.

Regressão de A nos dois primeiros autovetores: R² = 0,94. P é a parte “herdada”; S, a parte própria de cada espécie.

Ideia de Martins & Housworth (2002), Syst. Biol. 51: 873–880.
Paráfrase de Rohlf (2001), Evolution 55: 2143–2160.

Área acima da diagonal: o atributo evolui mais rápido que o BM; abaixo, mais devagar.
Diniz-Filho, Rangel, Santos & Bini (2012), Evolution 66: 1079–1090.
Paráfrase de Diniz-Filho et al. (2012), Ecography 35: 239–249.

Autovetores filogenéticos e variáveis ambientais como preditores.
Desdevises, Legendre, Azouzi & Morand (2003), Evolution 57: 2647–2652.
R² ajustado (%), pico de cada fenofase, 34 espécies da Mata Atlântica:
| Fenofase | Filogenia [a+b] | Ambiente [b+c] | Só filogenia [a] | Compartilhada [b] | Só ambiente [c] | Não explicada [d] |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Botão floral | 67,80 | 91,73 | 4,67 | 63,14 | 28,60 | 3,60 |
| Flor | 52,10 | 86,02 | −1,48 | 53,58 | 32,45 | 15,45 |
| Fruto imaturo | 42,30 | 83,51 | 4,55 | 37,75 | 45,76 | 11,94 |
| Fruto maduro | 34,60 | 95,56 | −0,11 | 34,71 | 60,85 | 4,55 |
Sem partição, a filogenia parece explicar muito; com partição, quase tudo é compartilhado com o ambiente: um nicho reprodutivo estruturado na filogenia.
Tabela 5 de Staggemeier, Diniz-Filho & Morellato (2010), J. Ecol. 98: 1409–1421, traduzida.

Log da frequência dominante, 3 autovetores: R² = 0,16.
Dados de Garey et al. (2018), Biol. J. Linn. Soc. 125: 292–301. No artigo, uma PCA resumiu os parâmetros espectrais e os temporais em dois eixos.
Há sinal?

Serve para atributos binários e com vários estados.
Pavoine, Baguette & Bonsall (2010), Ecol. Monogr.

A contribuição de cada nó para a diversidade é testada de três formas, por permutação das pontas:
Sinal filogenético: diversidade enviesada para a raiz (A).
Pavoine, Baguette & Bonsall (2010), Ecol. Monogr. 80: 485–507.

Fig. 3 de Franco-Belussi, Provete & De Oliveira (2017), Ecol. Evol. 7: 9222–9233, CC BY 4.0. Ver também Provete et al. (2012), Zool. Scr. 41: 547–556.
\[D = \frac{\sum d_{\text{obs}} - \overline{\sum d_{\text{BM}}}}{\overline{\sum d_{\text{aleatório}}} - \overline{\sum d_{\text{BM}}}}\]

Σd: soma das diferenças entre clados irmãos. Anolis trunk-ground (25 de 82 espécies): D = -0,95.
Fritz & Purvis (2010), Conserv. Biol. 24: 1042–1051. Calculado com caper::phylo.d.
Para atributos categóricos com qualquer número de estados: mede a incerteza da reconstrução dos estados ancestrais; quanto menor a incerteza, maior o δ e mais forte o sinal.
Borges et al. (2019), Bioinformatics 35: 1862–1869.

Antes de usar qualquer método, leia o artigo que o propôs. Não fazer isso pode causar a rejeição do seu manuscrito.

E o sinal? K = 0,2 com 12 spp.
Almeida Júnior, Recado difícil (1895), domínio público, via Wikimedia Commons. Prática: o walkthrough da Aula 3 e o desafio.
Métodos Filogenéticos Comparativos · PPGBA/UFMS