
Aula 2 · Métodos Filogenéticos Comparativos · PPGBA/UFMS
Todas as figuras desta aula foram geradas em R, com simulações ou com a árvore de 7 espécies do exemplo de Freckleton et al. (2002), a árvore-guia do curso. O código está em R/aula02_*.R.

O BM e a matriz C


Os dois atributos foram simulados independentes. A “correlação” vem só do parentesco: espécies próximas são mais parecidas, e os graus de liberdade ficam inflados. Hoje: por que espécies próximas se parecem?

Baseado no esquema de Hansen & Martins (1996).

O caminho dos mecanismos microevolutivos para a variação interespecífica é conceitual. Inferir esses mesmos mecanismos a partir de padrões interespecíficos (filogenéticos) é difícil, senão impossível.
Ideia de um slide de J. A. F. Diniz-Filho, sobre o esquema de Hansen & Martins (1996).
“Phylogenies can only depict patterns, not underlying processes”
Losos (2011), Am. Nat. 177: 709–727.
Por isso, os métodos filogenéticos comparativos podem ser vistos como uma “phylogenetic natural history”: descrevem padrões que pedem explicação, e as explicações vêm de outras linhas de evidência.
Uyeda, Zenil-Ferguson & Pennell (2018), Syst. Biol. 67: 1091–1109.

Hoje, o BM, o modelo nulo. Os outros três ficam para a Aula 4.
O BM e a matriz C

Maull & Polyblank (1855), domínio público, via Wikimedia Commons.

Robert Brown (1773–1858) descreveu o movimento errático de partículas em suspensão na água, que leva o seu nome.

O BM entrou na filogenética com Cavalli-Sforza & Edwards (1967), que o usaram para modelar a mudança de frequências gênicas ao longo de uma árvore.

Soma dos resultados de 6 dados (de 6 a 36), jogados 10 vezes.
Ideia de um slide de José Hidasi-Neto.

O resultado de cada jogada é imprevisível, mas a distribuição de probabilidade de um conjunto de curvas é conhecida (aproximadamente normal) e permite predizer eventos futuros.
Ideia de um slide de José Hidasi-Neto.
Dois parâmetros:
Cuidado com a notação: em muitos textos o valor inicial aparece como \(\theta\). Neste curso, \(\theta\) fica reservado para o ótimo do modelo Ornstein-Uhlenbeck (Aula 4).
Três fatos descrevem um BM. Se \(W(t)\) é o valor do caráter no tempo \(t\):
Traduzindo: o valor do caráter no tempo \(t\) segue uma distribuição normal com média igual ao valor inicial \(W(0)\) e variância igual à taxa vezes o tempo, \(\sigma^2 t\).
\[\huge \color{#a15e3f}{dX(t)} \;=\; \color{#527238}{\sigma}\; \color{#1c6e8c}{dB(t)}\]
\(dX(t)\): a quantidade de mudança no caráter \(X\) entre o tempo \(t\) e \(t + dt\)
\(\sigma\): a raiz da taxa, que dá a escala de cada passo
\(dB(t)\): o passeio aleatório, um sorteio de uma normal com média 0 e variância \(dt\)




Cada trajetória é imprevisível; o conjunto tem distribuição normal, com média no valor inicial.

Depois da especiação, cada linhagem segue o seu próprio passeio aleatório, a partir do mesmo valor.



As linhagens que se separaram mais tarde (vermelha e verde) compartilham mais história, e por isso terminam com valores mais parecidos entre si. É a ideia da matriz C, no bloco 3.

A soma de muitos passos pequenos e independentes tende a uma distribuição normal, qualquer que seja a distribuição de cada passo.

Mesmas sementes nos dois painéis: só muda a taxa. Butler & King (2004) ilustram o BM da mesma forma, ao lado do OU.

Com \(\sigma^2 = 1\), a inclinação estimada nas simulações é 1,00: a variância entre linhagens cresce linearmente com o tempo.

Quatro processos (deriva; mudança pontuada aleatória; seleção fraca em relação à escala de tempo considerada; seleção que muda de direção aleatoriamente ao longo do tempo) produzem leques como o do BM.
Processos muito diferentes produzem o mesmo padrão de BM. Ajustar bem um BM não mostra que houve deriva: mostra só que o padrão é compatível com um passeio aleatório.
É o mesmo raciocínio de “sinal filogenético é um padrão, não um processo”, na Aula 3.
O BM e a matriz C
O parentesco comum aumenta ou diminui a similaridade entre espécies em termos de fenótipo?
… mas antes, vamos entender o que é uma matriz de distância filogenética (patrística) e uma matriz de variância-covariância.


\(d(A, B) = 5 + 3 + 2 = 10\)

\(d(B, C) = 2 + 2 = 4\): a distância soma os ramos não compartilhados.

Exemplo de Freckleton, Harvey & Pagel (2002), redesenhado: a árvore-guia do curso.

Espécies de clados que só se encontram na raiz têm covariância zero.

\(\text{var}(sp_1) = 0{,}20 + 1{,}06 + 0{,}18 = 1{,}44\): o caminho inteiro da raiz até a ponta.

\(\text{cov}(1, 2) = 0{,}20 + 1{,}06 = 1{,}26\): só o caminho compartilhado.

\(\text{cov}(1, 4) = 0{,}20\)

\(\text{cov}(3, 4) = 0{,}20 + 1{,}22 = 1{,}42\)

Espécies 3 e 4 são mais parecidas entre si (maior covariância em termos de fenótipo) do que as espécies 1 e 2, porque compartilham maior proporção de história evolutiva comum (1,42 contra 1,26).
\(C_{ij}\) = comprimento do caminho compartilhado da raiz até o ancestral comum mais recente de \(i\) e \(j\). Na diagonal, \(C_{ii}\) = distância da raiz até a ponta \(i\).
Sob BM com taxa \(\sigma^2\), os valores das pontas \(\mathbf{X}\) seguem uma normal multivariada:
\[\mathbf{X} \sim N\big(z_0 \mathbf{1},\ \sigma^2 \mathbf{C}\big)\]
Em R: ape::vcv(arvore). A distância patrística é o complemento: \(d_{ij} = C_{ii} + C_{jj} - 2C_{ij}\).

Cada modelo evolutivo transforma a árvore numa matriz diferente: é assim que o λ (Aula 3) e o OU (Aula 4) entram nos métodos.
O BM e a matriz C

Na estrela, assumimos que as espécies são independentes; na árvore, as espécies têm uma estrutura de parentesco.

Em 1000 réplicas de BM na árvore-guia, a correlação entre duas espécies acompanha o caminho que elas compartilham.

Com \(\sigma^2 = 1\), a covariância entre as pontas, estimada das simulações, reproduz C.

Dois atributos independentes, simulados por BM 1000 vezes numa árvore de dois clados: a regressão comum acusa relação em 62,1 % das vezes; com C no modelo (PGLS), em 4,0 %.
É o “pior caso” de Felsenstein (1985). O PGLS é o tema da Aula 5.
Estão associados?

As espécies não são independentes, mas as diferenças entre espécies irmãs são: cada uma surgiu depois da separação, num ramo próprio.
Com \(n\) espécies, há \(n - 1\) contrastes independentes, um por nó.
Felsenstein (1985), Am. Nat. 125: 1–15. Atributo A do exemplo de Freckleton et al. (2002).

A diferença, padronizada pelo desvio padrão esperado sob BM:
\[c = \frac{x_1 - x_2}{\sqrt{v_1 + v_2}}\]
\[c = \frac{2{,}51 - 2{,}80}{\sqrt{0{,}18 + 0{,}18}} = -0{,}48\]

Média dos filhos, ponderada pelo inverso dos ramos:
\[x_k = \frac{x_1/v_1 + x_2/v_2}{1/v_1 + 1/v_2}\]
Com ramos iguais, é a média simples: \(x_{10} = 2{,}66\).

O valor do nó é uma estimativa, com incerteza. Ela entra como um acréscimo ao ramo acima do nó:
\[v_k \leftarrow v_k + \frac{v_1 v_2}{v_1 + v_2}\]
\(1{,}06 + \frac{0{,}18 \cdot 0{,}18}{0{,}36} = 1{,}15\)

Nó a nó, das pontas para a raiz: 6 contrastes para 7 espécies.
O valor da raiz (1,83) é a estimativa de máxima verossimilhança do estado ancestral sob BM: voltamos a ele na Aula 7.
| Nó | Contraste entre | Contraste de A | Contraste de B |
|---|---|---|---|
| 13 | sp6 e sp7 | 0,885 | 1,637 |
| 12 | sp5 e nó 13 | 0,469 | -0,330 |
| 11 | sp3 e sp4 | -0,450 | -3,600 |
| 10 | sp1 e sp2 | -0,483 | -0,850 |
| 9 | nó 10 e nó 11 | 0,246 | -0,392 |
| 8 | nó 9 e nó 12 | 0,996 | 0,258 |
Calculados com pic_passos() e conferidos com ape::pic().

Mesmos dados, conclusões diferentes: com as espécies tratadas como independentes, a inclinação é 0,13; com os contrastes, 1,40.
| Inclinação | |
|---|---|
| Contrastes (pela origem) | 1,3982 |
PGLS com corBrownian |
1,3982 |
A equivalência é exata sob BM: Blomberg, Lefevre, Wells & Waterhouse (2012), Syst. Biol. 61: 382–391.

O diagnóstico vem de Garland, Harvey & Ives (1992), Syst. Biol. 41.

Antes de usar qualquer método, leia o artigo que o propôs. Não fazer isso pode causar a rejeição do seu manuscrito.

Teoria peneirada Agora é mão na massa
Almeida Júnior, Cozinha caipira (1895), Pinacoteca do Estado de São Paulo, domínio público, via Wikimedia Commons. Prática: o walkthrough da Aula 2 e o desafio.
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