Ética, regras editoriais e boas práticas de reporte
Instituto de Biociências, UFMS · Biodiversity Synthesis Lab
20 de setembro de 2026
Pergunta-guia: o problema não é se usamos IA generativa, é como usamos e como reportamos.
Slides, código e referências: github.com/diogoprov · Os slides marcados com ✂ opcional no canto superior direito saem na versão de 40 min.
Antes de qualquer coisa, e porque esta palestra é sobre transparência: eu sou parte do sistema que vou descrever.
Duas consequências que vocês devem levar em conta ao me ouvir. Primeira: vou citar bastante a política da Wiley, e tenho vínculo comercial com a Wiley. Segunda: quando eu falar do volume de submissões, não é leitura de artigo — é o que chega na minha caixa de entrada todos os dias.
Julguem o argumento pelas fontes, que estão todas nos slides, e não pelo meu crachá.
+33% submissões no 1º trimestre de 2026 vs. 2025 (plataforma ScholarOne)
17% → 33% a taxa de crescimento dobrou de 2025 para 2026
+81% em periódicos pequenos (<15 submissões/trimestre); grandes cresceram 20%
O crescimento é assimétrico: bate mais forte em quem tem menos estrutura editorial para absorver.
Dados da plataforma ScholarOne Manuscripts, compilados em The Scholarly Kitchen (13/05/2026): https://scholarlykitchen.sspnet.org/2026/05/13/guest-post-is-growth-always-good-news-2026-article-submission-surges/
Leitura de quem está do outro lado: o gargalo deixou de ser o parecerista. Passou a ser o tempo do editor para decidir o que sequer entra em revisão.
Mesma fonte (ScholarOne / The Scholarly Kitchen, 2026). O autor é explícito: o padrão “é consistente com crescimento legítimo”, mas também é “o padrão que se esperaria se parte relevante da alta refletisse submissões de baixo esforço, assistidas por IA”.
No Information Systems Journal, os editores relatam que receber 20 submissões novas por dia virou normal; a taxa de desk rejection passou de 60% e a de aceite caiu a 4%. A conferência ICIS 2026 recebeu 72,6% mais submissões que a de 2025.
No FEBS Journal, o editor-chefe descreve o mesmo quadro do outro lado: o esforço para separar as submissões problemáticas cresceu a ponto de consumir o tempo que deveria ir para a ciência.
Mas cuidado com a inferência. Os próprios editores do ISJ escrevem que suspeitam que boa parte dessas submissões foi feita com IA generativa — é suspeita declarada, não medição. E Jamali et al. (2025), entrevistando 27 editores, encontram outra explicação para a falta de revisores: carga de trabalho acadêmica e universidades que tiraram a revisão por pares dos modelos de alocação de horas.
O que eu vejo, na primeira pessoa: é exatamente esse o quadro nas duas revistas em que faço triagem. O volume subiu, e subiu puxado por manuscritos que chegam prontos, plausíveis e vazios. A IA generativa não chegou a um sistema saudável — chegou a um que já estava sob tensão.
Davison RM et al. (2026). Information Systems Journal. doi:10.1111/isj.70055 · Martin SJ (2026). FEBS J 293:5–9. doi:10.1111/febs.70388 · Jamali HR, Wakeling S, Luca EJ (2025). Learned Publishing 39(1). doi:10.1002/leap.2034
Kobak et al. (2025) analisaram mais de 15 milhões de resumos do PubMed (2010–2024) e mediram a mudança abrupta na frequência de palavras de estilo (“excess vocabulary”).
“Esta análise de excesso de palavras sugere que pelo menos 13,5% dos resumos de 2024 passaram por LLMs. Esse limite inferior variou entre disciplinas, países e periódicos, chegando a 40% em alguns subcorpora.”
Original: “This excess word analysis suggests that at least 13.5% of 2024 abstracts were processed with LLMs. This lower bound differed across disciplines, countries, and journals, reaching 40% for some subcorpora.”
13,5% é um piso, não uma estimativa central. E é uma assinatura estilística — não é uma acusação de má conduta.
Kobak D, González-Márquez R, Horvát E-Á, Lause J. Delving into LLM-assisted writing in biomedical publications through excess vocabulary. Science Advances (2025). doi:10.1126/sciadv.adt3813 · preprint: arXiv:2406.07016
IA generativa não criou o problema das paper mills. Mas baixou drasticamente o custo marginal de produzir um manuscrito plausível.
Van Noorden R (2023). More than 10,000 research papers were retracted in 2023 — a new record. Nature 624:479–481. https://www.nature.com/articles/d41586-023-03974-8
Drobniak et al. (2026) mapearam 230 periódicos de ecologia e biologia evolutiva e auditaram artigos publicados:
Drobniak SM et al. A systematic map of generative AI guidelines and reporting in ecology and evolutionary biology: towards the framework of AI disclosure for Improved Transparency (AIdIT). Research Integrity and Peer Review (2026). doi:10.1186/s41073-026-00230-1

Fig. 1 de Drobniak et al. (2026), Res Integr Peer Rev, doi:10.1186/s41073-026-00230-1. Reproduzida sem alterações sob CC BY-NC-ND 4.0.
Existe um abismo entre princípio e prática: todo mundo concorda que se deve declarar, quase ninguém declara — e as políticas não dizem como declarar.
Drobniak et al. (2026), doi:10.1186/s41073-026-00230-1 · McClure CJW (2026). Generative-AI policies vary widely across top ornithology journals. Ibis 168:1159–1163. doi:10.1111/ibi.70054
Não é uma questão de mérito intelectual. É uma questão de imputabilidade:
“Ferramentas de IA não podem atender aos requisitos de autoria porque não podem se responsabilizar pelo trabalho submetido. Por não serem entidades jurídicas, não podem declarar a existência ou ausência de conflitos de interesse, nem gerir direitos autorais e acordos de licenciamento.” — COPE
Original: “AI tools cannot meet the requirements for authorship as they cannot take responsibility for the submitted work. As non-legal entities, they cannot assert the presence or absence of conflicts of interest nor manage copyright and license agreements.”
COPE, Authorship and AI tools (posição revisada em 13/02/2023; versão 1 publicada em 20/08/2024): https://publicationethics.org/guidance/cope-position/authorship-and-ai-tools
“Os autores são integralmente responsáveis pelo conteúdo do manuscrito, inclusive pelas partes produzidas por uma ferramenta de IA, e respondem por qualquer violação da ética em publicação.” (COPE)
Um fluxo de trabalho proposto para preparação de artigos: a IA entra como conferência e polimento, nunca como origem do conteúdo ou do julgamento.
Repare na assimetria: tudo que exige responder pelo resultado — analisar, citar, discutir — fica do lado humano.
White RR (2025). Generative artificial intelligence tools in journal article preparation: a preliminary catalog of ethical considerations, opportunities, and pitfalls. JDS Communications 6:452–457. doi:10.3168/jdsc.2024-0707

Recorte do resumo gráfico de White (2025), JDS Communications, doi:10.3168/jdsc.2024-0707, sob CC BY 4.0.
A favor do uso: para quem não é falante nativo de inglês, LLMs reduzem uma barreira linguística real e documentada — e essa barreira sempre foi um filtro injusto na ciência.
Contra o uso acrítico: as ferramentas herdam e amplificam vieses do corpus.
“As tecnologias de IA não têm acesso, por padrão, a conteúdo de periódicos por assinatura ou atualizado atrás de paywall. Em consequência, podem super-representar a literatura de acesso aberto e o conteúdo geral da web, e sub-representar a pesquisa publicada em periódicos híbridos e de assinatura.” — Wiley
Original: “AI Technologies do not have access to up-to-date subscription or paywalled journal content by default. As a result, they may overrepresent open access literature and general web content while underrepresenting research published in hybrid and subscription journals.”
Para nós, no Sul global: a ferramenta que derruba a barreira do idioma pode, ao mesmo tempo, estreitar a literatura que você enxerga.
Wiley, Using AI tools in your research (2026). · Park J. Towards a transparent and reproducible AI-assisted research paper writing. Genomics & Informatics 23:26 (2025). doi:10.1186/s44342-025-00057-0
Um LLM “pode ser usado para escrever e substituir o pensamento crítico e a revisão minuciosa da literatura, em prejuízo do próprio usuário. No caso dos estudantes, escrever os primeiros manuscritos é uma experiência formativa transformadora. A dependência excessiva desses robôs de linguagem os priva dessa oportunidade, limitando seu crescimento intelectual e sua confiança.”
Original: “[…] can be used to write and replace critical thinking and thorough literature reviews to the detriment of the user. In the case of students, the writing of their first manuscripts is a transformative training experience. Over-reliance on these language bots deprives them of this opportunity, limiting their intellectual growth and confidence.”
Escrever o primeiro artigo é o método de formação. Terceirizar essa etapa não economiza tempo do aluno — economiza a formação dele.
Best Practices for Using AI When Writing Scientific Manuscripts (Editorial). ACS Nano 17:4091–4093 (2023). doi:10.1021/acsnano.3c01544
“The grunt work is the work.”
“You can’t skip the first five years of learning and expect to survive the next twenty.”
Minas Karamanis, The machines are fine. I’m worried about us. (30/03/2026) — https://ergosphere.blog/posts/the-machines-are-fine/
O argumento do ensaio: o risco não é tecnológico, é institucional. O que corrói a formação não é a ferramenta, e sim o sistema de incentivos que premia volume de publicação em vez de compreensão — a IA só tornou isso barato o bastante para ficar visível.
Vale a pena ler inteiro. É a peça mais honesta que li sobre o assunto, e não é sobre IA: é sobre nós.
Elsevier, Springer Nature, Wiley, Taylor & Francis e Sage concentram a maior parte do que publicamos.
“Combined, the top five most prolific publishers account for more than 50% of all papers published in 2013.” — Larivière, Haustein & Mongeon (2015)
Nas ciências naturais e médicas, essa fatia era de 53% em 2013, contra cerca de 20% em 1973.
Consequência prática: conhecer cinco políticas cobre a maior parte das suas submissões — mas nunca dispensa ler as instruções do periódico específico.
Larivière V, Haustein S, Mongeon P. The Oligopoly of Academic Publishers in the Digital Era. PLoS ONE 10(6):e0127502 (2015). doi:10.1371/journal.pone.0127502
| IA como autor | Onde declarar | Revisão por pares | |
|---|---|---|---|
| Elsevier | Não listar nem citar como autor | Seção própria: Declaration of generative AI… (texto padronizado) | Não subir manuscrito a ferramenta de IA; só ferramentas privadas, em apoio à linguagem |
| Springer Nature | Atribuir autoria/responsabilidade a IA é vermelho | Declaração transparente do uso | Pode usar como apoio, sem subir conteúdo a ferramentas públicas ou inseguras |
| Wiley | Direito autoral exige autoria humana | FAQ de Disclosure and declaration of AI use | Manuscrito sob revisão não pode ser subido, nem em parte |
| Taylor & Francis | Ver política de autoria | Declaration of AI use statement na submissão / metodologia | — |
| Sage | — | Métodos ou agradecimentos | Parecer gerado por GenAI: revisor não é mais convidado e o parecer é descartado |
Páginas oficiais das editoras, consultadas em setembro de 2026 (links no slide de referências).
As cinco concordam em três coisas:
Onde elas divergem é justamente no que mais nos afeta no dia a dia: o que precisa ser declarado, onde e com que nível de detalhe.
Título da seção: Declaration of generative AI and AI-assisted technologies in the manuscript preparation process
“During the preparation of this work, the author(s) used [NAME OF TOOL / SERVICE] in order to [REASON]. After using this tool/service, the author(s) reviewed and edited the content as needed and take(s) full responsibility for the content of the published article.”
Detalhe que muita gente erra: “Basic checks of grammar, spelling and punctuation do not need a declaration statement.” Corretor ortográfico não é declaração de IA.
Para nós: foto de espécime, radiografia, gel, prancha de girinos — nada de “melhorar” com IA. É evidência, não ilustração.
“Photographs in research manuscripts serve as evidence and artifacts of your research process. AI enhancement tools can introduce unintended alterations that compromise the reliability and reproducibility of your research evidence.”
Wiley, Using AI tools in your research (2026): https://www.wiley.com/publishing/article/ai-guidelines
Verde — uso assistivo
Âmbar — uso avaliativo/interpretativo
Vermelho — IA substituindo julgamento
Nature Portfolio, Artificial Intelligence (AI): https://www.nature.com/nature-portfolio/editorial-policies/ai
Aplicando o semáforo da Springer Nature aos usos reais — e cruzando com a portaria do CNPq:
| O que você faz | Semáforo SN | Declara? |
|---|---|---|
| Traduzir ou polir o inglês do texto que você escreveu | Verde — “polir ou refinar a linguagem” | Editoras: em geral dispensam. CNPq: sim — a alínea (c) não abre exceção |
| Reescrever/expandir a Discussão a partir do seu rascunho | Âmbar — “copidesque extensivo” | Sim, em Métodos. Se o argumento veio do modelo e você o apresenta como seu, vira vermelho |
| Escrever ou depurar código em R para análise e figuras | Verde a âmbar — “limpeza de dados”; “recomendar testes estatísticos” | Sim — o CNPq cita “análise de dados” nominalmente. E você tem de saber defender a escolha do modelo |
| Responder ao parecerista | Verde — “traduzir ou clarificar comentários de revisor” | Sim, se foi além da linguagem |
A linha que separa tudo isso é uma só: a IA pode trabalhar sobre o que você já pensou; não pode pensar no seu lugar.
É o uso mais comum entre alunos e o que mais gera medo. Minha posição, como editor:
A zona cinza honesta: o parecer que você recebeu foi escrito por outra pessoa e muitos periódicos o tratam como confidencial. Não existe regra consolidada sobre colar um parecer inteiro numa ferramenta pública. Na dúvida, trabalhe sobre a sua resposta, não sobre o texto do revisor — e, se precisar do parecer, use ferramenta com opção de não-treinamento.
Não há nada de errado em escrever uma carta-resposta clara e educada com ajuda. O que não pode é prometer no rebuttal uma análise que você não fez.
Taylor & Francis — a declaração deve conter:
Não exigem declaração: copidesque e refino de linguagem, sugestões de gestão de referências, geração de ideias, apoio à programação.
Sage — exige declaração quando a IA produz conteúdo que “directly impacts the research methodology, analysis, results and/or conclusions”. Ferramentas meramente assistivas (língua, gramática, estrutura) não exigem declaração. Local: métodos ou agradecimentos.
Cambridge University Press — três regras curtas:
“AI use must be declared and clearly explained in publications such as research papers”; “AI and LLM tools may not be listed as an author on any scholarly work published by Cambridge”; “Authors are accountable for the accuracy, integrity and originality of their research papers, including for any use of AI”.
Oxford University Press — é a única das sete com um formulário próprio: “Authors and Volume Editors should be sure to complete the AI Use Declaration Form”. Também é a mais explícita sobre propriedade intelectual:
“you must not upload any work you intend to publish with OUP, in full or in part, into any Gen AI tool that does not permit you to opt out of re-use or training in this way.”
Formulário da OUP — AI Use Declaration for Authors and Contributors: link direto (PDF)
https://www.cambridge.org/core/services/publishing-ethics/authorship-and-contributorship-journals · OUP, Author use of Artificial Intelligence (AI)
A própria Wiley dá a regra prática:
Drobniak et al. (2026) confirmaram empiricamente: periódicos da mesma editora divergem entre si. Só a Elsevier apareceu com política consistente em todo o portfólio.
E “ter política” não quer dizer cobertura: analisando 439 periódicos de alto fator de impacto e 363 de FI médio, Wang & Gong encontraram política de IA para revisão em 83% dos primeiros e 75% dos segundos — e registraram mudanças de política entre março e agosto de 2025.
Wang Z, Gong M (2025). A Cross-Disciplinary Analysis of AI Policies in Academic Peer Review. Learned Publishing 39(1). doi:10.1002/leap.2035
Hilliard et al. (2026) compararam a política de IA em oito jurisdições — UE, Reino Unido, China, Brasil, Rússia, EUA, Coreia do Sul e Singapura:
“Brazil’s Bill No. 5051/2019 was one of the earliest AI law proposals around the world.”
“the majority of AI laws that have been passed are concentrated across Europe, the US, China, Brazil and Russia.”
A portaria do CNPq não é um ponto fora da curva: é a ponta, dentro da ciência, de uma trajetória regulatória em que o Brasil chegou cedo.
Hilliard A, Gulley A, Kazim E, Koshiyama AS (2026). Artificial intelligence policy worldwide: a comparative analysis. R. Soc. Open Sci. 13:242234. doi:10.1098/rsos.242234 (CC BY 4.0)
Aplica-se a (Art. 4º): proponentes e bolsistas; usuários da Plataforma Lattes e da Carlos Chagas; quem acessa dados do CNPq; servidores; e membros de Comitês de Assessoramento, Comitês de Julgamento e consultores ad hoc.
Ou seja: vale para você como autor, como bolsista PQ, e como parecerista.
c) “declarar o uso de ferramentas de Inteligência Artificial Generativa - IAG, de qualquer espécie e em qualquer fase do desenvolvimento da pesquisa (concepção, redação, análise de dados, submissão) especificando nos respectivos textos e exposições eletrônicas, a ferramenta utilizada e a finalidade;”
d) “é vedada a submissão de conteúdo gerado por IAG como se fosse de autoria humana, sendo os autores integralmente responsáveis pelo conteúdo final, inclusive por eventuais plágios ou imprecisões geradas pela IAG;”
e) “é vedada a inserção de projetos de pesquisa de terceiros em ferramentas de IAG para elaboração de pareceres científicos;”
f) “responsabilizar-se integralmente pelo conteúdo final da pesquisa, inclusive por eventuais plágios ou imprecisões geradas pela IAG;”
A portaria não proíbe usar IA generativa. Ela exige declarar e responsabilizar-se.
Três consequências que costumam passar batido:
A portaria não cria uma infração específica de “uso indevido de IA”. Ela funciona pelo resultado:
Referência fabricada por LLM que passa para o texto final não é “erro da ferramenta”. Pela alínea (d), é responsabilidade integral dos autores.
| Situação | Editoras (típico) | CNPq 2.664/2026 |
|---|---|---|
| Revisão de gramática/ortografia | Dispensa declaração (Elsevier, T&F, Sage) | Alínea (c) não abre exceção |
| Ajuda na concepção da pesquisa | Âmbar / exige declaração | Declarar: “qualquer fase” |
| Código de análise gerado por IA | Varia; T&F dispensa | Declarar: “análise de dados” |
| Parecer com apoio de IA | Restrito; proibido subir manuscrito | Vedado inserir projeto de terceiro |
Na prática: a portaria é mais abrangente que a maioria das políticas editoriais. Se você declarar no padrão CNPq, estará coberto nos dois mundos.
Alcance: a exigência vale para redação do manuscrito, produção de imagens/gráficos e coleta ou análise de dados.
COPE, Authorship and AI tools: https://publicationethics.org/guidance/cope-position/authorship-and-ai-tools
Regra de bolso quando o periódico não diz nada: declare em Métodos, nomeie a ferramenta e a finalidade, e assuma a responsabilidade.
Um LLM prediz o próximo token dada a sequência anterior. O texto é plausível por construção, não verdadeiro por construção.
“ChatGPT is merely an efficient language bot that generates text by linguistic connections. It is, at present, ‘just a giant autocomplete machine’.”
Fluência e correção são propriedades independentes. O modelo otimiza a primeira. Quem verifica a segunda é você.
Séamus Martin, editor-chefe do FEBS Journal, formula o mesmo ponto de forma mais afiada: o objetivo da IA não é ser acurada — é parecer acurada.
ACS Nano 17:4091–4093 (2023). doi:10.1021/acsnano.3c01544 · Martin SJ (2026). The FEBS Journal in 2026: safeguarding scientific integrity amid the rise of the machines. FEBS J 293:5–9. doi:10.1111/febs.70388
O modo de falha mais perigoso para nós: a citação existe estatisticamente (autores plausíveis, periódico plausível, ano plausível) e não existe factualmente.
Regra da Wiley, literal:
“Always check whether a citation corresponds to an actual publication. For journal articles, confirm the DOI leads to a valid record in an academic database, your library’s catalog, or the publisher’s website.”
E o passo que quase ninguém dá:
“Confirm that cited sources make the arguments you attribute to them.”
A referência existir não basta. Ela precisa dizer o que você afirma que ela diz.
Para revisão de literatura: a IA complementa a busca em bases; não substitui. Leia as fontes primárias que são críticas para o seu argumento.
ACS Nano (2023), doi:10.1021/acsnano.3c01544 · Wiley, Using AI tools in your research (2026)
Weber-Wulff et al. (2023) testaram 14 ferramentas de detecção — 12 gratuitas, mais Turnitin e PlagiarismCheck:
“as ferramentas de detecção disponíveis não são nem acuradas nem confiáveis e têm um viés principal de classificar a saída como escrita por humano, em vez de detectar texto gerado por IA”
Original: “the available detection tools are neither accurate nor reliable and have a main bias towards classifying the output as human-written rather than detecting AI-generated text”
Os autores recomendam, textualmente, que essas ferramentas não sejam usadas em contexto acadêmico.
Weber-Wulff D, Anohina-Naumeca A, Bjelobaba S, Foltýnek T, Guerrero-Dib J, Popoola O, Šigut P, Waddington L (2023). Testing of detection tools for AI-generated text. International Journal for Educational Integrity 19:26. doi:10.1007/s40979-023-00146-z
Liang et al. (2023) mostraram para onde o erro aponta:
“Nossos resultados revelam que esses detectores classificam erroneamente, de forma consistente, amostras de escrita de não-nativos de inglês como geradas por IA, ao passo que amostras de nativos são identificadas corretamente.”
Original: “Our findings reveal that these detectors consistently misclassify non-native English writing samples as AI-generated, whereas native writing samples are accurately identified.”
E, no mesmo estudo, estratégias simples de prompt atenuam esse viés e driblam os detectores.
Leia isso duas vezes, pensando na sua plateia: a ferramenta falha contra o pesquisador brasileiro honesto e passa batido em quem quer burlar. Adotar detecção como política institucional é importar esse viés para dentro de casa.
O melhor argumento, porém, é o mais curto. A própria OpenAI aposentou o detector que ela mesma lançou, e a nota continua na página original:
“Desde 20 de julho de 2023, o classificador de IA não está mais disponível, devido à sua baixa taxa de acurácia.”
Original: “As of July 20, 2023, the AI classifier is no longer available due to its low rate of accuracy.”
Por isso a governança do uso de IA não pode depender de detecção — depende de declaração. É o tema do último bloco.
Liang W, Yuksekgonul M, Mao Y, Wu E, Zou J (2023). GPT detectors are biased against non-native English writers. Patterns 4(7):100779. doi:10.1016/j.patter.2023.100779 · OpenAI, New AI classifier for indicating AI-written text (nota de descontinuação). A assinatura medida por Kobak et al. (2025) é populacional: descreve a literatura, não julga um manuscrito.
Antes de colar qualquer coisa numa ferramenta, verifique nos termos de uso:
Nunca insira: manuscrito de terceiro sob revisão; projeto alheio (vedação expressa do CNPq); dados sensíveis, sob sigilo ou embargo; achados inéditos ou metodologia própria ainda não publicada.
Wiley (2026); OUP, Author use of Artificial Intelligence (AI); Elsevier, Generative AI policies for journals
Sinais de dependência, segundo a própria orientação da Wiley — evite:
Três perguntas antes de aceitar qualquer trecho: Eu entendi por quê? Eu conseguiria defender isso numa arguição? Eu assino embaixo?
Sempre
Nunca
AIdIT = AI disclosure for Improved Transparency (Drobniak et al. 2026).
“Rather than asking whether AI was used, the framework asks how it was used (e.g. generation, refinement, comparison) and where it influenced the research process.”
| Estágio do ciclo | Geração de conteúdo | Refinamento | Comparação |
|---|---|---|---|
| Conceitualização | geração de ideias | avaliação de ideias | identificação de lacunas; revisão de literatura |
| Curadoria de dados | achar novas fontes | limpeza; anotação | relacionar conjuntos de dados |
| Análise formal | novo código; formulação de modelo estatístico; cálculo matemático | refino de código existente | comparar abordagens de código |
| Captação de recursos | gerar seções de proposta | edição e correção do texto | benchmark contra as diretrizes da agência |
| Investigação | geração de novos dados e ativos | aumento e modificação de dados | mineração de texto; síntese de múltiplas fontes |
| Métodos | identificar métodos; gerar/revisar protocolo | refino de métodos/protocolos | comparar abordagens |
| Validação | identificar abordagens de validação | checagem cruzada; gestão de erros | comparar resultados de validações |
| Visualização | código para gráficos; imagens generativas | refino estético | avaliação contra padrões |
| Redação | identificar literatura a citar; gerar texto a partir de prompts | gestão bibliográfica; edição de estilo/gramática | identificar contextos; avaliar contra políticas |
Tabela 1 de Drobniak et al. (2026), doi:10.1186/s41073-026-00230-1
Supervisão humana. O AIdIT pede que você descreva não só o papel da IA, mas como a saída foi checada, validada ou aprovada.
O text mining dos autores mostrou por que isso importa: bigramas ligados a supervisão humana eram praticamente ausentes nas diretrizes existentes — exceto “human oversight”, com prevalência baixa.
Para orientadores: exigir uma declaração AIdIT na dissertação transforma “não use IA” (inexequível) em “use e documente” (verificável).
Fig. 7 de Drobniak et al. (2026), Res Integr Peer Rev, doi:10.1186/s41073-026-00230-1. Reproduzida sem alterações sob CC BY-NC-ND 4.0.


Convergência das três: estruturar a declaração aumenta a qualidade do que é declarado. Campo livre e opcional não funciona.
Fig. 1 de Ahmetoglu, Constantinides & Cox (2026), CHIWORK ’26, doi:10.1145/3808045.3808056, sob CC BY 4.0.
Generative AI use disclosure
Durante a preparação deste trabalho, os autores utilizaram [ferramenta, versão, mês/ano] para [finalidade: p.ex. refino de linguagem no texto principal; geração de código em R para as Figs. 2–3]. As saídas foram verificadas por [iniciais] contra [fonte de verificação: dados brutos, fontes primárias, execução do código]. Os autores revisaram e editaram o conteúdo conforme necessário e assumem integral responsabilidade pelo conteúdo do artigo publicado. Nenhum manuscrito, projeto ou dado não publicado de terceiros foi inserido em ferramentas de IA generativa.
Três acréscimos ao modelo da Elsevier: versão e data, quem verificou o quê (no espírito do MeRIT) e a negativa explícita de confidencialidade — que é o que a portaria do CNPq exige e as editoras assumem.
Sejamos claros: não há norma que obrigue declarar uso de IA em tese ou dissertação. Nem a portaria do CNPq, que fala de pesquisa e publicação, nem os programas, nem a CAPES. O que segue é sugestão minha, não exigência.
Mas os autores do AIdIT desenharam o framework justamente para isso:
“a estrutura do framework o torna particularmente adequado a contextos de ensino superior, incluindo teses de bacharelado e mestrado, dissertações de doutorado, trabalhos de disciplina e aprendizagem baseada em projetos.”
Para orientadores: exigir a declaração converte “não use IA” — que é inexequível e todo mundo sabe — em “use e documente”, que é verificável e ensinável. E protege o aluno numa arguição.
Original: “the framework’s structure makes it particularly suitable for higher education contexts, including bachelor’s and master’s theses, doctoral dissertations, coursework, and project-based learning.” — Drobniak et al. (2026), doi:10.1186/s41073-026-00230-1
Sugestão de seção, logo após os agradecimentos ou no final do capítulo de métodos geral:
Declaração de uso de inteligência artificial generativa
Na preparação desta [dissertação/tese] foram utilizadas as seguintes ferramentas de IA generativa: [ferramenta, versão, período].
Etapas e finalidade: [p.ex. Redação — refino de linguagem e correção gramatical nos Capítulos 2 e 3; Análise formal — geração e depuração de código em R para as Figs. 2.1–2.4; Curadoria de dados — padronização de nomes taxonômicos].
Etapas sem uso de IA: [p.ex. concepção do problema, desenho amostral, coleta de campo, interpretação dos resultados e conclusões].
Verificação e supervisão: todas as saídas foram conferidas por [iniciais do discente] contra [dados brutos, fontes primárias, execução do código] e revisadas por [iniciais do orientador]. A responsabilidade pelo conteúdo é integralmente do(a) autor(a).
Nenhum manuscrito, projeto ou dado não publicado de terceiros foi inserido em ferramentas de IA generativa.
Repare no que faz esse modelo funcionar: ele declara onde não houve uso tanto quanto onde houve. É isso que dá à banca o que avaliar.
Wang & Gong (2025) analisaram as políticas de IA para revisão por pares de 802 periódicos e chegaram a uma conclusão incômoda para tudo que acabei de defender:
“Como vários estudos discutiram, não há método confiável para identificar com eficácia textos gerados por IA. Nem revisores, nem editores, nem ferramentas de IA conseguem distinguir com acurácia texto gerado por IA de texto gerado por humano. Muitos periódicos pedem que autores ou revisores declarem seu uso de IA mas, lamentavelmente, essas declarações não têm peso.”
Original: “As several studies have discussed, there is no reliable method to effectively identify AI-generated texts. Neither reviewers, editors, nor AI tools can accurately distinguish between AI-generated text and human-generated text. Many journals ask authors or reviewers to declare their AI use, but regrettably, these declarations carry no weight.”
E os números de prevalência não fecham entre si: ~38% dos artigos do JBJS podem conter conteúdo gerado por IA; ~19% dos acadêmicos numa pesquisa da Wiley admitem ter usado LLM na revisão; no Journal of Food Science, mais de 95% dos revisores declararam não ter usado.
“A series of conflicting survey and research findings indicate that both the use of AI technology and the extent of its adoption remain difficult to assess.”
Wang Z, Gong M (2025). Learned Publishing 39(1). doi:10.1002/leap.2035 (CC BY-NC 4.0). Os números internos são de Callanan et al. (2025), Wiley (2025) e Hartel (2025), conforme citados nesse artigo.
A objeção é boa — e mira no alvo errado. Declaração nunca foi mecanismo de detecção. É registro de responsabilidade.
E há um custo do outro lado, que Byrne et al. (2025) detalham: apertar a triagem para compensar a falta de detecção prejudica pesquisa legítima, com risco desproporcional para pesquisadores em início de carreira — e as ferramentas de triagem são pagas e de critérios não divulgados, o que penaliza justamente os periódicos menores e do Sul global.
Byrne JA, Abalkina A, Christopher J, Soulière MF (2025). Rethinking Peer Review Using the Swiss Cheese Model to Better Flag Problematic Manuscripts. Learned Publishing 38(4). doi:10.1002/leap.2021
O objetivo não é policiar o uso. É fazer com que o leitor consiga separar o que foi julgamento humano do que foi delegado — que é, no fim, o que a ciência sempre pediu.
Instituto de Biociências, UFMS
Biodiversity Synthesis Lab
Slides, código-fonte e todas as referências deste seminário estão no repositório vinculado a esta página.

Artigos
Artigos (continuação)
Normas e políticas (consultadas em setembro de 2026)
Dados de submissões e ensaio
Detecção
Figuras reaproveitadas
Estes slides: © Diogo B. Provete, sob CC BY 4.0. As figuras acima mantêm as licenças dos originais.
Estes slides foram preparados com apoio de Claude (Anthropic), setembro de 2026, nas etapas de redação (estruturação do roteiro e redação de texto a partir de prompts) e curadoria de dados (extração das políticas editoriais a partir das páginas oficiais e dos PDFs fornecidos pelo autor).
Todas as citações literais foram conferidas contra os documentos-fonte; todos os DOIs e URLs foram verificados em registros reais. O autor revisou e editou o conteúdo e assume integral responsabilidade por ele. Nenhum manuscrito, projeto ou dado não publicado de terceiros foi inserido em ferramentas de IA generativa.
Declaração no formato AIdIT (Drobniak et al. 2026) — estágios Writing (geração a partir de prompts) e Data curation (achar e organizar fontes), com supervisão e verificação por DBP.
provetelab.org